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Sexo e intimidade amorosa

por Klecius Borges

Entre as vantagens de se ser homossexual, está a possibilidade de vivenciar a sexualidade sem ser preciso, necessariamente, se encaixar em modelos de relacionamento convencionais e preestabelecidos institucionalmente. Ao contrário da maioria dos heterossexuais, não somos pressionados pelas expectativas sociais de casar, ter e educar filhos, acumular bens para deixar como herança e tantas outras. Muito cedo aprendemos a explorar nossas fantasias sexuais e a experimentar nossos desejos, num estilo de vida que, por ser clandestino, nos permite grande liberdade, quase sempre numa relação sem expectativas de continuidade.

Como forma de driblar os riscos inerentes a uma prática não aceita e em muitos casos proibida, os homossexuais costumam desenvolver modos sutis e eficientes de aproximação e satisfação do desejo sexual, sem envolvimentos de natureza emocional. Se, por um lado, essa prática nos garante uma certa eficácia sexual, por outro pode indicar, a longo prazo, uma dificuldade mais profunda de se vincular sexo e intimidade amorosa.

Crescendo em ambientes heterocêntricos e normalmente homofóbicos, sem a possibilidade de nos manifestarmos sexual e emocionalmente de forma verdadeira, desenvolvemos uma identidade dupla. A pública, expressa por comportamentos e atitudes heterossexuais, e a privada, baseada em sentimentos e desejos homossexuais. Como resultado desse processo de fragmentação da identidade, ao qual se juntam a ausência de modelos homossexuais e a falta de experiências significativas, principalmente na adolescência, muitos de nós acabamos perpetuando a cisão interna entre sexo e intimidade amorosa.

Mantido na maior parte das vezes inconsciente, esse processo freqüentemente se manifesta através de tentativas fracassadas de desenvolver ou manter relações amorosas significativas, íntimas e de longa duração. Marcado, de um lado, por sentimentos de frustração e, de outro, por mágoa e ressentimento, esse processo tende também a levar a uma idealização infantil das relações amorosas. O que nos impede, muitas vezes, de lidar de forma adulta e madura com as adversidades naturais das relações reais. Não é à toa que ouvimos a todo instante a afirmação, feita pelos próprios homossexuais, de que relações homossexuais estáveis são muito difíceis ou mesmo impossíveis de conseguir.

Ainda que muitos escolham deliberadamente estilos de vida que promovam a cisão entre sexo e intimidade amorosa e se declarem perfeitamente realizados dessa maneira, o que se percebe na prática é que tal escolha tende a mudar à medida que vai se desenvolvendo uma identidade homossexual positiva. Estágios mais avançados de auto-aceitação, seguidos de elevação da auto-estima, costumam trazer à tona necessidades e desejos de vinculação amorosa e intimidade emocional.

Nossa orientação sexual minoritária nos permite, é verdade, experimentar e inventar diferentes configurações sexuais e amorosas. Nos permite também fazer escolhas baseadas acima de tudo em nossas próprias necessidades, desejos e anseios. Livres de alguns encargos sociais, somos livres para criar os estilos de vida que nos convêm.

Independentemente, porém, dos estilos de vida que escolhemos e das inúmeras formas de nos relacionar que adotamos ao longo da vida, sempre estaremos diante do maravilhoso desafio interno que é a nossa realização plena como seres humanos. Quando então sexo e amor se integram de forma harmoniosa.

Texto publicado no site G Online. Seção Saindo do Armário. Ano 2003.





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