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O dilema das relações homossexuais estáveis

por Klecius Borges

Entre os muitos dilemas enfrentados pelos homossexuais masculinos e femininos, um dos que mais geram ansiedade e frustração é o desejo manifesto de viver harmonicamente uma relação estável de longa duração em confronto com a possibilidade de alcançar isso.

Cercadas por falsas generalizações e afirmações conclusivas, as relações entre pessoas do mesmo sexo tendem a ser vistas, tanto por gays como por não-gays, de forma padronizada e estereotipada, como se, por sermos "diferentes" dos casais tradicionais, devêssemos constituir um grupo homogêneo com um único modelo de relacionamento. Analisadas fora do contexto sexo, idade, bagagem cultural etc., essas relações parecem destituídas de nuances e particularidades e distantes de uma infinidade de arranjos possíveis para a concretização dos anseios de se compartilharem experiências afetivas e sexuais com outra pessoa.

Diante de uma visão simplista como essa e de um número muito limitado de modelos de relacionamento homossexuais visíveis nos quais nos inspirar, muitos de nós, homossexuais, passamos a ver o modelo heterossexual como o único viável e aceitável. E, com base em nossas experiências com o modelo heterossexual dominante, acabamos por reproduzir mecanicamente a crença de que a felicidade só existe, e é real, num relacionamento estável e de que os relacionamentos de longa duração são melhores e superiores.

Ao ignorarmos um certo pioneirismo nas formas de relacionamento que se dão entre os casais de mesmo sexo, muitos de nós acabamos por nos ver embaralhados em questões específicas e complexas e para as quais o modelo heterossexual dominante não traz as respostas mais pertinentes.

Não se pode ignorar, por exemplo, a importância do fator grau de visibilidade do casal homossexual e sua forte influência em decisões muito importantes, tais como morar ou não juntos, conviver ou não com ex-maridos (ou ex-mulheres) e filhos de casamentos anteriores, participar ou não como um casal de reuniões sociais, familiares e profissionais.

Também questões como fidelidade e comprometimento pessoal adquirem tonalidades bem diferentes em um contexto no qual ainda não há reconhecimento legal ou social do relacionamento, que vê a maternidade ou a paternidade como estados opcionais ou até mesmo indesejáveis e no qual herança e patrimônio conjunto não constituem razões determinantes para a manutenção de uma relação.

Na busca, consciente ou inconsciente, de um relacionamento a dois "normal", muitos casais homossexuais deixam de enxergar a grande oportunidade de criarem seu próprio modelo de relacionamento e, como conseqüência, de poder fazer suas escolhas de acordo ou não com a cultura dominante.

O grande dilema que vivemos nos relacionamentos homossexuais não diz respeito apenas à nossa dificuldade de torná-los viáveis e aceitáveis numa cultura predominantemente heterossexual, mas à insegurança que temos em reconhecer, aceitar e valorizar nossas diferenças e fazer da diversidade justamente o nosso maior trunfo.

Texto publicado no site G Online. Seção Saindo do Armário. Ano 2003.





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